Política Nacional de Resíduos Sólidos e invisibilização dos catadores diante do Decreto n.º 12.438/2025
DOI:
https://doi.org/10.46901/revistadadpu.i25.p23-51Palabras clave:
catadores de materiais recicláveis, importação de resíduos sólidos, justiça ambiental, Política Nacional de Resíduos Sólidos, sustentabilidadeResumen
A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), instituída pela Lei n.º 12.305/2010, representou um marco na gestão ambiental brasileira ao estabelecer diretrizes para o encerramento dos lixões, a destinação adequada dos resíduos em aterros sanitários e, sobretudo, a inclusão socioprodutiva dos catadores de materiais recicláveis como agentes fundamentais da economia circular. Passados 16 anos de sua promulgação, os avanços conquistados ainda convivem com graves desafios estruturais: a persistência de lixões a céu aberto, a ausência de remuneração pelos serviços ambientais prestados pelos catadores e a fragilidade na implementação da coleta seletiva solidária. Em 2025, a promulgação do Decreto-Lei n.º 12.438, que regulamentava o artigo 49, §1º, da PNRS e flexibilizava a proibição da importação de resíduos sólidos, sinalizou um retrocesso nas políticas ambientais e na soberania dos territórios, ao abrir espaço para práticas de colonialismo ambiental. Este artigo analisa os riscos e impactos desse decreto, que foi posteriormente revogado, sob as perspectivas ambiental, social e econômica, com ênfase nas consequências para os catadores, historicamente invisibilizados nas políticas públicas. A pesquisa adota uma abordagem qualitativa, fundamentada em revisão bibliográfica, análise documental e exame dos marcos legais, propondo uma reflexão crítica sobre os caminhos da justiça ambiental e os desafios contemporâneos da PNRS diante da mercantilização dos resíduos no Brasil.
Citas
ABREMA. Panorama dos resíduos sólidos no Brasil 2024. São Paulo: Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente, 2024. Disponível em: https://www.abrema.org.br/panorama/. Acesso em: 1 maio 2025.
ACSELRAD, Henri; HERCULANO, Selene; PÁDUA, José Augusto (org.). A justiça ambiental e a dinâmica das lutas territoriais. Rio de Janeiro: DP&A, 2004.
ACSELRAD, H. Justiça ambiental e construção social do risco. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 24, n. 69, p. 15-26, 2009.
ACSELRAD, H. Justiça ambiental: construção e desafios. 3. ed. Rio de Janeiro: Lamparina, 2022.
ALIMONDA, H. Ecologia política latino-americana: pensamento crítico, diferenciação socioambiental e territórios em disputa. 2. ed. Buenos Aires: CLACSO, 2021.
ANDRADE, S. R.; FERREIRA, A. L. Obstáculos ao estabelecimento de uma gestão adequada para os resíduos sólidos urbanos. Revista Brasileira de Gestão e Desenvolvimento Regional, v. 7, n. 1, p. 1-15, 2011.
ARRUDA, M. F. A. Interseccionalidade, organização e sustentabilidade: o caso das mulheres catadoras de material reciclável nos municípios litorâneos da Região Metropolitana do Recife. Tese (Doutorado) — Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa, Lisboa, 2024.
BENJAMIN, A. H. V. Princípio da precaução e o Direito Ambiental brasileiro. Revista de Direito Ambiental, São Paulo, n. 100, p. 25-39, 2020.
BERNARDO, M. F. Catadores e a justiça ambiental: invisibilidades e resistências nas cidades brasileiras. Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais, v. 25, n. 2, p. 178-197, 2023.
BESEN, R.; SILVA, T. P.; PEREIRA, M. J. Redução do volume de resíduos sólidos urbanos: desafios e perspectivas. Revista Brasileira de Gestão Ambiental, v. 10, n. 3, p. 325-340, 2016.
BRASIL. Lei n.º 6.938, de 31 de agosto de 1981. Dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente, seus fins e mecanismos de formulação e aplicação, e dá outras providências. Brasília, 1981. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l6938.htm.
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Diário Oficial da União, Brasília, 5 out. 1988. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 1 maio 2025.
BRASIL. Senado Federal. Projeto de Lei n.º 203/1991. Dispõe sobre o acondicionamento, a coleta, o tratamento, o transporte e a destinação final dos resíduos de saúde. Brasília: Senado Federal, 1991.
BRASIL. Decreto n.º 875, de 19 de julho de 1993. Promulga a Convenção de Basileia sobre o Controle de Movimentos Transfronteiriços de Resíduos Perigosos e seu Depósito. Brasília, 1993. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1990-1994/d0875.htm.
BRASIL. Lei n.º 9.433, de 8 de janeiro de 1997. Institui a Política Nacional de Recursos Hídricos, cria o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos, regulamenta o inciso XIX do art. 21 da Constituição Federal, e altera o art. 1º da Lei n.º 8.001, de 13 de março de 1990, que modificou a Lei n.º 7.990, de 28 de dezembro de 1989. Brasília, 1997. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9433.htm.
BRASIL. Lei n.º 9.795, de 27 de abril de 1999. Dispõe sobre a educação ambiental, institui a Política Nacional de Educação Ambiental e dá outras providências. Brasília, 1999. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9795.htm.
BRASIL. Lei n.º 11.107, de 6 de abril de 2005. Dispõe sobre normas gerais de contratação de consórcios públicos e dá outras providências. Brasília, 2005. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2005/lei/l11107.htm.
BRASIL. Decreto n.º 5.940, de 25 de outubro de 2006. Institui a separação dos resíduos recicláveis descartados pelos órgãos e entidades da administração pública federal direta e indireta, na fonte geradora, e a sua destinação às associações e cooperativas dos catadores de materiais recicláveis, e dá outras providências. Brasília, 2006. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/decreto/d5940.htm.
BRASIL. Lei n.º 11.445, de 5 de janeiro de 2007. Estabelece diretrizes nacionais para o saneamento básico; altera as Leis n.º 6.766, de 19 de dezembro de 1979, 8.036, de 11 de maio de 1990, 8.666, de 21 de junho de 1993, 8.987, de 13 de fevereiro de 1995; revoga a Lei n.º 6.528, de 11 de maio de 1978; e dá outras providências. Brasília, 2007. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2007/lei/l11445.htm.
BRASIL. Decreto-Lei n.º 7.217, de 21 de junho de 2010. Regulamenta a Política Nacional de Saneamento Básico, e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 22 jun. 2010.
BRASIL. Lei n.º 12.305, de 2 de agosto de 2010. Institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Diário Oficial da União, Brasília, 3 ago. 2010.
BRASIL. Decreto n.º 7.404, de 23 de dezembro de 2010. Regulamenta a Lei n.º 12.305, de 2 de agosto de 2010, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos, cria o Comitê Interministerial da Política Nacional de Resíduos Sólidos e o Comitê Orientador para a Implantação dos Sistemas de Logística Reversa, e dá outras providências. Brasília, 2010. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/decreto/d7404.htm.
BRASIL. Decreto n.º 7.405, de 23 de dezembro de 2010. Institui o Programa Pró-Catador, denomina o Comitê Interministerial para Inclusão Social e Econômica dos Catadores de Materiais Reutilizáveis e Recicláveis o Comitê Interministerial de que trata o Decreto de 11 de setembro de 2003, e dá outras providências. Brasília, 2010. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/decreto/d7405.htm.
BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Plano Nacional de Resíduos Sólidos: versão preliminar. Brasília, 2010. Disponível em: https://www.mma.gov.br.
BRASIL. Lei n.° 14.026, de 15 de julho de 2020. Atualiza o marco legal do saneamento básico e altera a Lei n.º 9.984, de 17 de julho de 2000. Diário Oficial da União, Brasília, 16 jul. 2020. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2020/lei/l14026.htm.
BRASIL. Decreto n.º 10.473, de 24 de agosto de 2020. Revoga o Decreto n.º 7.405, de 23 de dezembro de 2010, que institui o Programa Pró-Catador e denomina o Comitê Interministerial para Inclusão Social e Econômica dos Catadores de Materiais Reutilizáveis e Recicláveis. Brasília, 2020. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2020/decreto/d10473.htm.
BRASIL. Lei n.º 14.260, de 27 de outubro de 2021. Altera a Lei n.º 12.305, de 2 de agosto de 2010, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos, para dispor sobre a gestão de resíduos sólidos urbanos. Diário Oficial da União, Brasília, 27 out. 2021.
BRASIL. Decreto-Lei n.º 11.414, de 13 de fevereiro de 2023. Institui o Programa Diogo de Sant’Ana Pró-Catadoras e PróCatadores para a Reciclagem Popular e o Comitê Interministerial para Inclusão Socioeconômica de Catadoras e Catadores de Materiais Reutilizáveis e Recicláveis. Diário Oficial da União, Brasília, 14 fev. 2023. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2023/decreto/D11414.htm.
BRASIL. Decreto-Lei n.º 12.106, de 2024. Dispõe sobre o incentivo fiscal à cadeia produtiva da reciclagem. Diário Oficial da União, Brasília, 2024.
BRASIL. Lei n.º 15.088, de 15 de março de 2025. Altera dispositivos da Lei n.º 12.305, de 2 de agosto de 2010, e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 16 mar. 2025.
BRASIL. Decreto-Lei n.º 12.438, de 17 de abril de 2025. Regulamenta o §1º do art. 49 da Lei n.º 12.305/2010. Diário Oficial da União, Brasília, 22 abr. 2025.
BRASIL. Decreto-Lei n.º 12.451, de 6 de maio de 2025. Estabelece diretrizes para a gestão de resíduos sólidos e veda a importação de resíduos recicláveis. Diário Oficial da União, Brasília, 6 maio 2025.
DEMAJOROVIC, L. F.; LIMA, R. G. O papel dos catadores no ciclo de reaproveitamento de resíduos sólidos urbanos. Revista Brasileira de Gestão Ambiental, v. 23, n. 1, p. 45-60, 2019.
DIAS, S. Reciclagem e trabalho decente: desafios para o Brasil urbano. Belo Horizonte: UFMG/ WIEGO, 2011.
GOMES, A. F.; SILVA, J. M.; SANTOS, R. P. Os catadores e a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Revista Brasileira de Política Ambiental, v. 10, n. 2, p. 45-62, 2021.
GONÇALVES, C. W.; COSTA, F. A. Sustentabilidade solidária: catadores, políticas públicas e resíduos urbanos. Cadernos Metrópole, v. 25, n. 57, p. 223-242, 2023.
HAMAOKA, S. P.; BRANCO, P. G. Proibição de importação de resíduos sólidos: exigências para aplicação da Lei n.º 15.088. Consultor Jurídico, São Paulo, 24 abr. 2025. Disponível em: https://www.conjur.com.br/2025-abr-24/proibicao-de-importacao-de-residuos-solidosexigencias-para-aplicacao-da-lei-no-15-088-2025/. Acesso em: 2 maio 2025.
IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo Demográfico 2010: características da população e dos domicílios: resultados do universo. Rio de Janeiro: IBGE, 2011. Disponível em: https://www.ibge.gov.br.
IPEA – INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA. Catadores de materiais recicláveis: diagnóstico dos programas e ações do governo federal. Brasília: IPEA, 2012.
IPEA – INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA. Diagnóstico dos planos de gestão integrada de resíduos sólidos: Brasil 2023. Brasília: IPEA, 2023.
LEROY, J.-P. Justiça ambiental: construindo o campo socioambiental no Brasil. São Paulo: Fundação Rosa Luxemburgo, 2021.
LOUREIRO, C. F. B. Educação ambiental e políticas públicas: uma análise crítica da PNRS. Revista Brasileira de Educação Ambiental, v. 16, n. 3, p. 21-38, 2021.
MEDINA, M. The informal recycling sector in developing countries: organizing waste pickers to enhance their impact. Gridlines, n. 44, p. 1-4, 2008.
NASCIMENTO, M. J.; SILVA, L. S.; FERREIRA, A. L. O papel dos catadores na segregação e no reaproveitamento dos resíduos sólidos urbanos. Revista Brasileira de Ciências Ambientais, v. 15, n. 4, p. 120-135, 2017.
OLIVEIRA PINTO, M.; CUNHA, F. A. A. Gestão e reaproveitamento de materiais recicláveis: desafios e estratégias. Revista Brasileira de Engenharia Ambiental, v. 12, n. 2, p. 150-165, 2019.
PACHECO, M.; BARROS, F. R. Colonialismo de resíduos e racismo ambiental: os perigos da flexibilização da legislação de importação de lixo no Brasil. Revista Direito e Práxis, v. 13, n. 4, p. 1864-1889, 2022.
PACHECO, R.; BARROS, L. C. Colonialismo de resíduos: o Brasil e os fluxos internacionais de lixo. Revista Direito Ambiental e Sociedade, v. 12, n. 1, p. 55-74, 2022.
RAMOS, N. F.; GOMES, J. C.; CASTILHOS, A. B.; GOURDON, R. (orgs.). Desenvolvimento de ferramenta para diagnóstico ambiental de lixões de resíduos sólidos urbanos no Brasil. Vol. 22. Rio de Janeiro: Engenharia Sanitária e Ambiental, 2017.
SEEG – SISTEMA DE ESTIMATIVA DE EMISSÕES DE GASES DE EFEITO ESTUFA. Emissões de GEE no Brasil: atualizações 2021. Observatório do Clima, 2021. Disponível em: https://seeg.eco.br. Acesso em: 8 maio 2025.
SILVA, R. Justiça ambiental, racismo ambiental e políticas públicas: desafios contemporâneos. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, v. 50, n. 177, p. 744-765, 2020.
##submission.downloads##
Publicado
Cómo citar
Número
Sección
Licencia
Derechos de autor 2026 Revista da Defensoria Pública da União

Esta obra está bajo una licencia internacional Creative Commons Atribución-NoComercial 4.0.
A. Los autores conservan los derechos de autor y conceden a la revista el derecho de primera publicación;
B. Los autores están autorizados a tomar contratos adicionales por separado, para la distribución no exclusiva de la versión del trabajo publicada en esta revista (por ejemplo: publicación en un repositorio institucional o como capítulo de libro), con reconocimiento de la autoría y publicación inicial en esta revista;
C. Se permite y alienta a los autores a publicar y distribuir su trabajo en línea (por ejemplo, en repositorios institucionales o en su página personal) en cualquier momento antes o durante el proceso editorial, ya que esto puede generar cambios productivos, así como aumentar el impacto y la mención del trabajo publicado.

.jpg)
